Para comemorar 75 anos de sua fundação, o Racing Club de France, de Paris, idealizou em 1957 o Torneio Internacional de Paris. Para abrilhantar a festa, foram convidados três times que representavam grandes forças no momento. Naquela primeira edição, o campeão carioca Vasco batia o então bicampeão (posteriormente penta) Real Madrid por 4x3.
O torneio virou tradição, e se tornou uma das referências de grandes torneios disputados na Europa nos ditos "Anos Dourados" e teve um total de 30 edições. Consistia sempre em um torneio disputado, normalmente após o fim da temporada europeia, no estádio Parc des Princes com a participação de quatro equipes, que disputavam um "mata-mata" para chegar ao título (apenas em 2010 foi um quadrangular em pontos corridos). As primeiras dez edições (1957 a 1966) foram organizadas pelo Racing; em 1973 a competição retornou, mas organizada desta vez pelo Paris FC; e de 1975 a 1993 seria realizado com apenas uma interrupção, e organizado pelo Paris Saint-Germain, que com dificuldades financeiras abandonou o torneio. Este acabou sendo disputado mais uma vez em 2010, coincidentemente para comemorar o aniversário do anfitrião, o Paris Saint-Germain, que completava 40 anos.
Em junho de 1960, graças ao bom retrospecto anterior, o Santos foi convidado para jogar a quarta edição do certame. A exemplo das edições anteriores (e posteriores), entre as forças europeias havia também um clube brasileiro. O Peixe, que vivia sua melhor fase e que seria campeão paulista naquele ano, acabou por pintar a França de branco e preto. Primeiro venceu inapelavelmente o Stade de Reims por 5x3. Na final, dois dias depois, contra o time anfitrião, aplicou uma goleada para se tornar campeão do Torneio de Paris pela primeira vez.
Os participantes daquela edição foram:
Racing Club de France (clube anfitrião)
CDNA Sofia (atual CSKA Sofia - campeão búlgaro nas 7 temporadas anteriores ao torneio)
Stade de Reims (campeão francês de 1960, vice-campeão europeu em 1956 e 1959)
Santos Futebol Clube (vice-campeão brasileiro de 1959, campeão do Rio-São Paulo no mesmo ano; campeão paulista em 1955, 56 e 58, vice em 57 e 59)
Confira os jogos da competição:
07/06/1960 Racing Paris 2 x 0 CDNA Sofia
07/06/1960 Santos 5 x 3 Stade de Reims Local:Estádio Parc des Princes - Paris/França Árbitro: De Villières Gols santistas: Coutinho (3), Pelé e Pepe
Santos:Laércio; Calvet, Mauro, Formiga e Zé Carlos; Zito e Mengálvio (Ney); Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe (Tite). Técnico: Lula
Vídeo:
Decisão do 3º lugar
09/06/1960 Stade de Reims 1 x 1 CDNA Sofia
FINAL
RACING C.F. 1 x 4 SANTOS F.C. Data: 9 de junho de 1960 Local:Estádio Parc des Princes - Paris/França Juiz:Maurice Frederic Guigue Gols: Pelé aos 22' do 1º tempo e aos 11' do 2º; Pepe aos 26', Ujlaki aos 33' e Coutinho aos 42' do 2º tempo. Racing:Taillandier; Lelong, Herbin e Marche; Tibari e J.J. Marcel; Grillet, Toena, Ujlaki, Senae e Heutte. Santos:Laércio; Calvet (Getúlio), Mauro e Zé Carlos; Formiga e Zito; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe (Tite). Técnico: Lula
Vídeo:
Campanha do Santos:
2 jogos | 2 vitórias | 9 gols marcados | 4 gols sofridos | Saldo de gols: 5
1962 foi um grande ano para o futebol brasileiro. O time que conquistara o título mundial na Suécia em 1958 era praticamente o mesmo para também repetir, no Chile, a conquista da Copa do Mundo. E não bastasse ter a melhor seleção nacional do mundo, o Brasil também teria naquele ano o melhor time do mundo que, como é de se imaginar, era uma das bases daquele selecionado inesquecível. O goleiro Gilmar, o zagueiro e capitão Mauro, Zito (que marcou um gol na final vencida por 3x1 diante da Tchecoslováquia), Pelé, Mengálvio, Coutinho e Pepe eram os atletas que conseguiriam o feito de alcançar o topo do mundo duas vezes num mesmo ano.
O ano do cinquentenário santista foi um dos mais especiais que um clube esportivo pode ter. Foi o ano em que o Santos Futebol Clube alcançou o máximo que um time de futebol pode alcançar: o título mundial. A temporada de 1962 representou um feito que até hoje nenhum clube brasileiro conseguiu igualar: só o Peixe conseguiu, num mesmo ano, ser campeão estadual, nacional, continental e mundial. O Peixe ganhou tudo o que disputou, e só não ganhou o Rio-São Paulo porque não disputou, pois dava show numa sequência de amistosos pela América do Sul no início do ano, se preparando para disputar - e vencer - a Copa Libertadores da América de 1962.
A época do futebol-arte vivenciava suas primeiras competições internacionais interclubes. No geral, o futebol só havia se desenvolvido na Europa e na América do Sul, continentes onde o futebol já se tornara profissional até os anos 30. Nos demais continentes, havia poucos campeonatos nacionais e clubes que não tinham nível para bater de frente com sul-americanos e europeus. A primeira competição continental a ser disputada com regularidade foi a Copa dos Campeões Europeus (hoje Liga dos Campeões da Europa), em 1955/56. Anos antes, o secretário geral da UEFA Henri Delaunay (falecido em 1954), que também fora dirigente da FIFA, pretendia repetir em âmbito clubístico o que já era feito pelas seleções nacionais: um campeonato mundial.
A ideia só se aplicou em 1960, quando se realizou a primeira edição do Campeonato Sul-Americano de Clubes Campeões, posteriormente rebatizada com o nome de seu troféu, a famosa Taça Libertadores da América. No final deste ano, os campeões sul-americano (Peñarol) e europeu (Real Madrid) se enfrentaram para decidir quem seria o primeiro time a ostentar a glória de ser o melhor do mundo, se saindo melhor o esquadrão espanhol que já havia sido pentacampeão europeu.
Vale a pena lembrar que as demais competições continentais se formaram mais tarde, e demoraram mais ainda para alcançar o nível de organização do eixo Europa/América do Sul: A CONCACAF (Américas do Norte, Central e Caribe) formou seu campeonato continental em 1962, mas só passou a organizá-lo com regularidade em 1967, tendo um "buraco" em 2001; na África, começou em 1964, mas só em 1966 a disputa foi rigorosamente anual; na Ásia, houve uma primeira edição em 1967, mas quatro anos depois a competição foi abandonada e só retornou pra ficar em 1986; na Oceania, onde até hoje o futebol é semi-profissional, houve uma primeira edição do certame continental em 1987, mas só se firmou na temporada 2004/05. É fácil deduzir que por muitos anos a presença de times destes continentes era insignificante para uma disputa a nível mundial (podemos até pensar nas primeiras Copas do Mundo, que tiveram a quase totalidade de seleções da Europa e das Américas), sendo que hoje este raciocínio já não se aplica mais, ainda mais com o recentíssimo exemplo do campeão africano Mazembe, que chegou à final do último Mundial, mas não fez frente à campeã Internazionale.
A disputa tinha o aval da FIFA, sendo substituída pelo modelo atual (com campeões de todos os seis continentes) apenas em 2005, portanto qualquer tentativa de negar a oficialidade da Copa Intercontinental (nome oficial do Miundial Interclubes) é infundada, assim como negar aos clubes campeões desta os títulos legítimos de campeões mundiais. Até 1979, a disputa do torneio se dava em jogos de ida-e-volta, até que no ano seguinte, com a entrada da Toyota como patrocinadora, o Mundial passou a ser em jogo único no Japão, até a extinção da fórmula bicontinental em 2004.
Voltemos agora a 1962. O fato é que, naquele momento, com fantásticas exibições em amistosos e torneios jogados na América Latina e Europa, o Santos vinha sendo considerado o melhor time do mundo, mas para provar esta fama, era necessário chegar ao cobiçado título mundial.
Na Europa, o português Sport Lisboa e Benfica conseguia quebrar a hegemonia do Real Madrid, que conquistou as cinco primeiras edições da Liga dos Campeões. Em 1961, o clube de Lisboa tinha o melhor plantel de sua história, e desbancou na decisão do campeonato europeu o F.C. Barcelona, o mesmo que acabara com o sonho do hexa do grande rival. Em 1962, o adversário era, enfim, o esquadrão do Real Madrid, à época comandado por Puskás e Di Stéfano, que tentava recuperar a hegemonia no Velho Mundo. Mesmo com três gols do lendário craque húngaro, o Benfica contava com seu artilheiro, Eusébio, o melhor jogador português de todos os tempos, que marcou dois tentos e comandou a vitória por 5x3 que valeu o bicampeonato ao fortíssimo quadro português, jogando em Amsterdã (Holanda). Vale lembrar que este time era a base da seleção de Portugal que terminou em 3º lugar na Copa de 1966, vencendo o Brasil inclusive, tendo o mesmo centroavante Eusébio se tornado artilheiro do certame.
Na América do Sul, um adversário que também vivia seu auge naquela época. Para chegar à disputa do Mundial Interclubes de 1962, o Santos Futebol Clube primeiro foi campeão paulista em 1960, para se classificar e vencer a Taça Brasil de 1961. Daí, a disputa pelo título continental se deu com outra quebra de hegemonia: clicando aqui você poderá ver como o Peixe superou o bicampeão Peñarol para conquistar a Copa Libertadores de 1962, vencendo a partida decisiva pelo placar de 3x0 em Buenos Aires.
Santos e Benfica já se conheciam: no ano anterior, na final do Torneio de Paris, o Peixe batia as Águias por 6x3, num jogo onde destacava-se a atuação do novato Eusébio, que entrou no 2º tempo, quando o Santos vencia por 5x0, e marcou 3 gols. Inclusive, para os europeus, o jovem moçambicano já era considerado um novo rei do futebol, pelas suas grandes atuações em pouco tempo de clube, somado ao fato de que Pelé havia se machucado na 1ª fase e ficou fora do restante da Copa do Mundo do Chile. Naqueles dois jogos, porém, provar-se-ia exatamente o contrário.
A disputa do Mundial Interclubes de 1962 se dava em dois jogos, sendo que quem somasse mais pontos seria o campeão. Em caso de empate em número de pontos, seria disputado um terceiro jogo, com a finalidade de desempatar a contenda.
O primeiro encontro entre os campeões europeu e sul-americano daquele ano se deu na noite de 19 de setembro de 1962, uma quarta-feira, no Maracanã. O Alvinegro não jogou um futebol muito inspirado, e venceu por 3x2 um jogo muito equilibrado, com Pelé (2 vezes) e Coutinho marcando para o time brasileiro, e Santana marcando os dois tentos portugueses.
Confira a ficha técnica e o raro vídeo com lances do jogo:
SANTOS F.C. 3 x 2 S.L. BENFICA Data:19 de setembro de 1962 Local: Maracanã - Rio de Janeiro/GB Público: 86.047 pagantes - total de 94.129 Árbitro: Rubén Cabrera (Paraguai) Gols: Pelé aos 31' do 1º tempo; Santana aos 8', Coutinho aos 19', Pelé aos 40' e Santana aos 43' do 2º tempo. Santos: Gilmar; Lima, Mauro, Calvet e Dalmo; Zito e Mengálvio; Dorval, Pelé, Coutinho e Pepe. Técnico: Lula Benfica: José Rita; Ângelo, Raul, Humberto, Cavem e Cruz; Coluna e Santana; José Augusto, Eusébio e Simões. Técnico: Fernando Riera Vídeo:
Com este resultado, o empate era o suficiente para o Alvinegro Praiano. Porém, os portugueses acreditavam, embasados no que ocorrera no jogo de ida, certamente na partida de volta, no Estádio da Luz, em Lisboa, o Benfica alcançaria a desejada vitória. Em três semanas, poderia surgir um novo campeão. Para os benfiquistas, a virada era possível, prova disso é que já eram vendidos ingressos para o 3º jogo, que estava programado para ocorrer no mesmo Estádio da Luz. Não tinham ideia do que viria. O camisa 10 do Santos e do Brasil foi provar mais uma vez que é o Rei do Futebol: simplesmente teve uma atuação inacreditável, talvez a melhor de sua brilhante carreira. Não só ele, mas sim todo o time santista, protagonizou aquela que é tida como sua melhor exibição na história, e valendo a honraria de ser indiscutivelmente conhecido como o melhor time do mundo.
Às 22:00 (horário de Lisboa - 19:00 em São Paulo) de 11 de outubro, uma quinta-feira, iniciava-se o segundo confronto entre Santos e Benfica. Para se ter ideia do que aquele jogo significou para o futebol brasileiro, pela primeira vez o programa de rádio A Voz do Brasil teve seu horário adiado para que as emissoras pudessem transmitir a partida. Vale a pena lembrar que o rádio era o meio de comunicação mais popular à época.
Desde o início do jogo, ambos os times buscam o ataque e criam oportunidades de gol. Mas só aos 17 minutos é que sai o primeiro gol, e é do Santos. Pepe avança pela esquerda e chuta cruzado; a bola passa pelo goleiro Costa Pereira e Pelé, com puro oportunismo, desvia de carrinho a bola para o fundo das redes, abrindo a contagem no marcador do Estádio da Luz.
Ao Benfica, restava tentar a virada, e o quadro português vai pra cima do Peixe, criando mais chances de gol. Ao mesmo tempo que conseguia arrematar, também a defesa santista evitava que mais oportunidades de empate surgissem, assegurando a vantagem parcial. Determinado a garantir o título, o Santos também partiu ao ataque, e aos 26 minutos, Zito toca para Pelé, que Deixa Cavem no chão e passa por mais dois portugueses antes de soltar uma bomba no canto esquerdo do goleiro. Golaço!
O gol esfria os ânimos da torcida local e também o ímpeto do time da casa. Com isso, o Alvinegro domina o jogo até o final do primeiro tempo, e por pouco a vantagem no placar não acaba maior. Ao fim do primeiro tempo, os desolados torcedores portugueses fazem ainda questão de aplaudir o time santista, que vinha dando show. E nos 45 minutos decisivos, teria bem mais...
O segundo tempo começa e o Santos já parte pra liquidar a fatura: aos 3', Pelé recebe de Lima e escapa de dois defensores, e ainda dá uma meia-lua em Cruz, fazendo um cruzamento rasteiro na medida para Coutinho, que nem precisa sair do lugar e só tem trabalho de empurrar a bola para o gol. 3x0 numa belíssima jogada. O título mundial estava garantido.
Os locais ainda se encontravam dispostos a, quem sabe, reverter a situação. Inútil. Quando conseguem transpor a defesa santista, simplesmente não atingem o alvo. O jogo fica bonito de se ver, bastante aberto, e nos 90 minutos, jogadas violentas são rara exceção. Um exemplo de Fair Play marcara a decisão do Mundial de 1962, e além disso, as obras-primas de Pelé continuavam a ser produzida em gramados portugueses: a vítima da vez foi Coluna, que tomou na sequência, uma meia-lua e uma "caneta" do Rei, em mais uma jogada que precederia um golaço. Sim, depois do show de dribles, Pelé aparece em velocidade no lado esquerdo, deixando três portugueses para trás e desferindo um potente chute de esquerda. Costa Pereira espalma, mas Pelé, voando baixo, rebate a bola para a meta benfiquista, marcando um gol antológico, o terceiro tento dele no jogo.
Com o passar do tempo, o Santos domina a partida, mas o orgulhoso campeão europeu ainda luta. E o jovem ponta-esquerda Simões aparece como a esperança de seu time, levando a melhor quase sempre no mano-a-mano contra o veterano lateral-direito Olavo, 34 anos, e levando algum perigo ao gol da equipe brasileira.
O cronômetro marcava 31 minutos e o Santos toca a bola. Um zagueiro do Benfica desarma, e a bola sobra tranquilamente para Costa Pereira segurar. Porém, o arqueiro português escorregou na grama e não segurou a bola, que sobrou de graça para Pepe marcar, segundo ele, o gol mais feio de sua carreira. O campeão sul-americano já vencia por 5x0, fora o espetáculo. E ainda o Santos pressionava, buscando dilatar ainda mais a irreversível diferença no placar.
Porém, a luta e a vontade das Águias seria recompensada: nos minutos finais, Eusébio e Simões balançariam as redes de Gilmar, descontando a goleada, mas isto ainda seria insignificante diante da atuação histórica dos santistas, que após o apito final, pôde ter, definitivamente, o mundo a seus pés. Os europeus não tiveram escolha senão se curvar diante da realeza da bola, que se apresentou de maneira ímpar naquela histórica noite.
Confira a ficha técnica e o vídeo sobre o grande jogo:
S.L. BENFICA 2 x 5 SANTOS F.C. Data:11 de outubro de 1962 Local: Estádio da Luz - Lisboa (Portugal) Público: cerca de 80.000 Árbitro: Pierre Schwinte (França) Gols: Pelé aos 17' e aos 26' do 1º tempo; Coutinho aos 3', Pelé aos 19', Pepe aos 31', Eusébio aos 41' e Simões aos 44' do 2º tempo. Benfica: Costa Pereira; Jacinto, Raul, Humberto, Cavem e Cruz; Coluna e Santana; José Augusto, Eusébio e Simões. Técnico: Fernando Riera Santos: Gilmar; Olavo, Mauro, Calvet e Dalmo; Zito e Lima; Dorval, Pelé, Coutinho e Pepe. Técnico: Lula Vídeo:
Este pode, com méritos, ser chamado de "time dos sonhos" do Santos Futebol Clube. Corresponde ao onze selecionado para o primeiro jogo da final do Mundial Interclubes de 1962, realizado no Maracanã.
Em pé: Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Gilmar e Mauro. Agachados: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.
No segundo jogo, Mengálvio não jogaria em virtude de lesão, entrando em seu lugar o lateral-direito Olavo, deslocando Lima para o meio-campo.
Estes dois troféus, que representam as conquistas das Copas Intercontinentais de 1962 e 1963 pelo Santos F.C., são também os dois primeiros títulos mundiais de clubes conquistados por times brasileiros.
Fontes:
Cunha, Odir. Donos da Terra: a história do primeiro título mundial do Santos. Realejo, Santos (2007) http://pt.wikipedia.org/
Não há quem não se lembre da grande partida que decidiu o Campeonato Brasileiro de 2002: Corinthians 2 x 3 Santos, no Morumbi. E estes foram os relacionados para a bela virada, final do último Brasileirão com mata-mata até hoje.
Em pé: Alex, Preto, Pereira, Fábio Costa, Renato, Maurinho, Rafael, André Luís e Paulo Almeida.
Este jogo ainda está bem fresco na memória dos torcedores santistas. E também de muitos corinthianos. A diferença é que nós é que saímos vitoriosos. Completam-se 8 anos de um grande duelo que marcou o último Campeonato Brasileiro antes da atual Era dos Pontos Corridos. Naquele ano surgia mais uma geração que mereceu o título de Meninos da Vila, com jogadores que, não muito tempo depois, passariam pela seleção nacional, como o zagueiro Alex, o volante Renato, os meias Diego e Elano, e o atacante Robinho. O mesmo time-base acabou vice-campeão da Taça Libertadores no ano seguinte.
Os títulos mais recentes do Santos eram o Torneio Rio-São Paulo de 1997 e a Copa Conmebol de 1998. Com exceção destas duas conquistas, o Peixe não vivia grandes momentos e, por vezes ocorriam derrotas traumáticas. Às vésperas da grande final do Brasileirão '02, ainda estava engasgada a eliminação nas semifinais do Paulistão de 2001, com um gol de Ricardinho que decidia a a partida a favor do rival Corinthians. Era a chance de vingança contra o tradicional adversário.
Era comum, também, falarem num tabu de 18 anos sem títulos, o que não é verdade, uma vez que o tabu durou de 1984 a 1997, portanto o Santos já havia quebrado no Rio-São Paulo a péssima fase de 13 anos sem levantar um caneco de um campeonato oficial.
Este foi mais um duelo que marcou época, foi a consolidação de uma nova geração de craques, que ficará eternizado na memória de muitos torcedores (inclusive eu) e que confirmou tudo o que foi feito no "mata-mata", durante o qual mostramos que éramos melhores, desbancando favoritos e chegando ao tão sonhado título brasieiro, que não era vencido pelo Santos F.C. desde 1968. Os dois jogos da última final de Brasileirão até os dias atuais foram também o auge do último tabu do clássico Santos x Corinthians, no qual o Santos ficou 11 jogos seguidos sem perder para o rival, no decorrer de quase 4 anos. Já em 2002, tal escrita se iniciava, com vitórias santistas por 1x0 pelo Torneio Rio-São Paulo e por 3x1 em um amistoso.
O campeonato:
O Campeonato Brasileiro de 2002 - Série A era composto por 26 clubes, que na primeira fase jogariam entre si em turno único. As oito melhores equipes desta fase passavam às quartas-de-final, posteriormente semifinais e final. A segunda partida dos confrontos eliminatórios era disputada na casa do time de melhor campanha na primeira fase, que também tinha a vantagem do empate na soma dos resultados.
Durante a fase inicial, o Peixe alternou bons e maus momentos. Entre os bons, uma sequência invicta de 8 partidas, na qual goleou o Cruzeiro no Mineirão por 4x1 (resultado este que deixou o Santos na vice-liderança). O bi-mundial também não deu chances ao Flamengo numa convincente vitória por 3x0 e bateu com facilidade o Corinthians por 4x2, com direito a gol de bicicleta de Alberto, no Pacaembu. Este último se tornaria futuramente uma prévia da decisão que estaria por vir (veja vídeo do jogo abaixo):
No decorrer da competição, o time viu seu rendimento cair: no jogo que valeria a liderança do campeonato, o Santos encarou o São Paulo no Morumbi e acabou perdendo por 3x2. Na rodada seguinte, o Peixe perdeu pela primeira vez em casa, pra futuramente rebaixada Portuguesa, por 2x1. Depois, em Belém, a terceira derrota seguida, agora para o Paysandu: 2x1, jogo este que acabou em confusão.
Apesar disso, o Alvinegro estava com a classificação quase certa, a duas rodadas do final. Mesmo perdendo para a Ponte Preta na penúltima rodada (3x1 em plena Vila Belmiro), o Peixe era o sexto colocado e dependia apenas de um empate no último jogo para se garantir no G-8. Recordo-me que eram 99,76% de chances matemáticas de classificação. Porém, o já classificado São Caetano impôs um revés quase fatal: os demais resultados conspiravam para que aqueles insignificantes 0,24% se tornassem realidade, menos um, o jogo que nos salvou: o Coritiba, a esta altura, dependia de uma vitória para passar o Santos; os dois ficariam com 39 pontos, com o Coxa garantindo a última vaga por ter maior número de vitórias. Mas futebol é uma caixona de surpresas e o já rebaixado Gama venceu os paranaenses por 4x0. Como diria o programa Fantástico, da Globo, naquele dia: "Perder e ser feliz". O Santos era o 8º colocado, com 39 pontos, rumo às quartas-de-final, sendo superior ao Cruzeiro (9º) apenas no saldo de gols.
Se na primeira fase, o Santos teve sorte de campeão, no mata-mata, o futebol é que foi de campeão. Nas quartas-de-final o adversário era o líder São Paulo, que sobrou nos pontos corridos (52 pontos), mas não resistiu à decisão de fato: o San-São acabou com duas vitórias santistas, por 3x1 na Vila e 2x1 de virada no Morumbi.
Nas semifinais, o adversário era o Grêmio, 5º colocado na primeira fase (41 pontos). Alberto fez dois gols e Robinho completou o show com um de cobertura. Com o 3x0 na vila mais famosa do mundo, o gol solitário de Rodrigo Fabri no Olímpico não foi o suficiente: faltaram mais dois para os tricolores gaúchos, o Santos chegava à final do Brasileirão.
O Corinthians pretendia repetir no campeonato mais importante do país o sucesso do 1º semestre, quando conquistara o Torneio Rio-São Paulo e a Copa do Brasil. Fez uma boa primeira fase, se classificou com antecedência e completou as 25 rodadas iniciais no 3º posto, com 43 pontos. Nas quartas-de-final, eliminou o sexto colocado Atlético/MG com um 6x2 no Mineirão, com quatro gols de Deivid, e depois um 2x1 no Pacaembu. Nas semifinais, foi mais difícil: perdeu para o Fluminense no Maracanã por 1x0 no jogo de ida, mas na segunda partida, Guilherme fez o hat-trick e o Corinthians venceu por 3x2, se classificando por ter a melhor campanha (o Fluminense foi o 7º colocado, com 40 pontos).
O primeiro jogo:
Àquela altura, o sentimento dos santistas era o oposto daquele do começo da temporada. Um time que começava o campeonato nacional desacreditado e havia formado um elenco cheio de jovens atletas, muitos formados no clube, pensando em se livrar do rebaixamento, estava agora na final. De outro lado, os corinthianos estavam confiantes em um terceiro título no ano.
O Morumbi era o palco dos dois jogos da decisão, que ironicamente reunia os carrascos do São Paulo em 2002.
A primeira partida havia começado embaixo de chuva, mas isso não atrapalhou o espetáculo. O Santos, nos primeiros minutos, já havia criado três oportunidades de gol, e aos 15', um dos heróis do título, Alberto, recebeu belíssimo passe de Diego e tocou no meio das pernas do goleiro Doni, pondo sua marca no placar.
Alberto foi o artilheiro do Santos no Campeonato Brasileiro de 2002, com 12 gols, 4 deles na fase de mata-mata. Foi dele o 1º gol da primeira partida da final.
Aos 28', Guilherme mostrava que não era o dia dele, assim como uma semana depois também não seria. Na primeira chance boa do time da capital, o centroavante mandou por cima. No primeiro tempo, não haveriam outros momentos de destaque, fora o gol bem anulado de Alberto aos 35 minutos, após uma jogada interessante.
No início do segundo tempo, foi a vez do Corinthians partir pra cima. O time de Parque São Jorge levou perigo ao gol defendido por Fábio Costa em algumas oportunidades, dando emoção ao jogo, como aos 14', quando Deivid deu uma meia-lua no zagueiro, mas o arqueiro santista interviu bem. Aos 15 minutos e meio, Robinho recebe de Diego, consegue passar por Doni, mas é desarmado antes que pudesse finalizar. Foi o primeiro grande momento santista na segunda etapa.
O tempo passava e tanto Santos como Corinthians iam tendo oportunidades de mexer o placar, mas em vão. O Peixe começou a crescer novamente no embate: aos 30', Diego quase faz por cobertura; aos 32', após escorregão de Doni, quase a bola entra na cabeçada de Alex. No minuto seguinte, Robinho é puxado dentro da área, mas o árbitro não marca o pênalti claro.
Se nos primeiros 15 minutos pós-intervalo, só dava Corinthians, nos últimos 15 só deu Santos. O time de preto não conseguia mais acertar passes, e o 1x0 parecia cada vez mais o resultado definitivo. Porém aos 43 minutos, Kléber cobra lateral para Fabrício, que dá um presente para Robinho. O menino de 18 anos retribuiu servindo com categoria Renato, que chuta com classe na saída de Doni. A bola ainda toca na trave antes de entrar. Daí já não dava tempo pra mais nada: o Santos revertia a vantagem corinthiana e podia agora até perder por 1 gol de diferença no jogo decisivo.
Confira a ficha técnica do 1º jogo da final:
SANTOS F.C. 2 x 0 S.C. CORINTHIANS P. Data: 8 de dezembro de 2002 Local: Estádio do Morumbi - São Paulo/SP Árbitro: Antônio Pereira da Silva Gols: Alberto aos 15' do 1º tempo e Renato aos 43' do 2º. Cartões amarelos: Preto, Alberto e Renato (Santos). Santos: Fábio Costa; Michel, Preto, Alex e Léo; Paulo Almeida, Renato, Elano e Diego; Robinho e Alberto. Técnico: Émerson Leão Corinthians: Doni; Rogério, Fábio Luciano, Scheidt e Kléber; Vampeta, Fabrício e Renato (Leandro); Gil, Deivid (Marcinho) e Guilherme. Técnico: Carlos Alberto Parreira Melhores momentos:
Um jogo digno de uma final
Voltamos no tempo há exatos 8 anos e mais algumas horinhas. O país do futebol, que 5 meses e meio antes se tornara pentacampeão do mundo no esporte, presenciava a final de seu principal campeonato nacional. Era o melhor futebol do mundo descobrindo qual era o seu melhor time. Melhor do que uma grande final, era um clássico, e nada mais do que 9 títulos brasileiros em campo.
A missão do Corinthians era dura: vencer por pelo menos dois gols de diferença. Era certeza de entrega até o fim por parte dos jogadores e apoio total da torcida. Já os santistas queriam não só o suficiente para ser campeão, como gostariam de vencer mais um clássico. Desde o princípio, eram os nervos à flor da pele e 75 mil torcedores lotando o Morumbi para uma final épica.
O árbitro era Carlos Eugênio Simon, o mesmo que foi à Copa do Mundo e também quem apitou a final da Copa do Brasil. No duelo dos dois melhores times do país, tinha que ser escalado o melhor árbitro também.
O Santos não podia contar com o seu artilheiro, o atacante Alberto, que estava suspenso com 3 cartões amarelos. William foi quem ficou com a 9. E logo Simon apita o início da peleja, e as coisas começam a ficar piores pro time de Vila Belmiro: aos 10 segundos de jogo, Diego sente uma lesão logo após correr alguns metros e tocar uma vez na bola, logo após a saída. E não dá tempo de se lamentar, pois com 1 minuto de bola rolando, Guilherme dá uma cabeçada fatal, defendida com excelência por Fábio Costa, que passou boa parte daquele campeonato machucado, mas retornou para brilhar na fase final. Por falar em machucado, se dá a saída precoce de Diego. Em seu lugar, entra Robert.
Aos 10 minutos, aconteceu (acredite) a primeira falta do jogo. Robert cobra na área, Alex cabeceia e é a vez de Doni praticar grande defesa. Na sequência do jogo, o que se vê são os times buscando o ataque, mas passes errados, marcações bem feitas e finalizações sem perigo não dão muita empolgação ao jogo. O melhor que se viu na sequência foi um chute de Guilherme de fora da área aos 31', que passou por cima do gol.
Porém as características que tornaram aquele jogo histórico se desenharam passados pouco mais de 35 minutos de jogo: Renato rouba a bola e passa pra Léo, que encontra Robinho aberto pela esquerda. Ele recebe e avança de frente pro gol, até encontrar Rogério. Daí a criatividade e a habilidade de um craque permitem-lhe fazer lances que fiquem gravados para sempre. Robson de Souza, diante do marcador, ficaria a partir dali eternizado pelas suas "pedaladas": passou os pés por cima da bola 8 vezes, quando decidiu, dentro da área, escapar da marcação. Porém, Rogério põe a perna no caminho e derruba o garoto de 18 anos. Pênalti.
Qual ângulo você prefere?
Robinho pegou a bola e a responsabilidade. Naquele momento, não era mais um garoto, ou simplesmente um dos craques do time, mas sim o homem do jogo. A bola estava na marca da cal, Robinho se preparando para bater, Doni esperando no meio do gol. Robinho parte, pé direito na bola e GOL! Bola pra um lado, goleiro pro outro. O Santos abre o placar e o título de campeão está por pouco.
Ao Corinthians agora resta fazer 3 gols. E o time paulistano parte pra cima. São quase 40 minutos, e Fabinho manda uma bomba que passa raspando na trave direita da meta santista. Dois minutos depois, Fábio Costa corta o cruzamento e Gil manda por cima.
O jogo fica mais eletrizante ainda nos últimos segundos da primeira etapa: Vampeta dá um belíssimo passe para Kléber que fica cara a cara com Fábio Costa, que sai com tudo pra defender e ainda consegue chegar à lateral de campo para dar um bicão pra arquibancada. O goleiro santista volta o mais rápido que pode para a sua baliza, enquanto Kléber cobra o lateral para Gil, que no meio de dois marcadores devolve ao lateral-esquerdo. Logo depois vem o cruzamento para Guilherme, que cabeceia para mais uma defesa incrível do goleiro santista. Com três defesas de alto grau de dificuldade, surge mais um nome para ser lembrado daquele inesquecível 15/12/2002.
Fábio Costa teve atuação decisiva na conquista do título.
Começam então os últimos 45 minutos (mais acréscimos) da final. Seria um 2º tempo como poucos no futebol brasileiro. O Corinthians começa no ataque, mas o Santos se aproveita dos erros alheios para tentar um segundo gol que garantiria a taça. Aos 5 minutos, Léo parte na esquerda e cruza para trás, Elano ajeita de cabeça e Robinho dá um toquinho para surpreender Doni de cobertura. A bola vai por cima do gol.
A partida alcançaria contornos ainda mais dramáticos aos 9 minutos, com uma falta próxima ao bico da área. Rogério cobra para Kléber, que ajeita de volta. O cruzamento quase sai, mas Deivid põe a bola de volta na pequena área e Guilherme deixa Gil em plenas condições de empatar a partida, porém o camisa 10 corinthiano chuta longe. Alívio para os santistas, desespero para os corinthianos.
Aos 11', Fabinho dá um tapa na cabeça de Robert na lateral de campo. Leão, como de costume, reclama sem parar da arbitragem e cobra uma atitude do bandeirinha. Após marcar falta próxima à grande área santista, o árbitro Carlos Eugênio Simon expulsa o treinador do Santos. As coisas já não estavam tão fáceis... na cobrança da falta, Rogério chuta com força e a bola ainda dá um desvio em Paulo Almeida; mas com os reflexos em dia, a muralha santista não deixa a bola entrar. Na sequência, Rogério, o homem das bolas paradas do adversário, bate o escanteio e Fábio Costa novamente é obrigado a intervir. O lance também é marcado pela discussão ríspida entre o goleiro, o zagueiro André Luís e o volante Paulo Almeida. Novo escanteio é cobrado logo depois, e Fábio Costa de novo faz uma defesa espetacular.
Dali pra frente o Santos não conseguia mais acertar seus ataques, só conseguia dominar o meio de campo, ao passo que o Corinthians se defendia muito bem e tentava a todo custo pôr a defesa contrária em perigo. Porém, os chutes a gol que saíam iam para todo lugar, menos para o alvo.
E para colocar mais ingredientes no jogo, aos 27' um torcedor santista eufórico ainda invade o gramado. Jogo parado. Logo depois, o lesionado William deixa o gramado sob gritos de "É Campeão!". A menos de 20 minutos do fim, impossível pensar que no ritmo que o jogo andava o Coringão seria capaz de reagir. Chegávamos a 30 minutos de jogo, e Gil dá um belo cruzamento para Deivid, que finalmente consegue superar a barreira imposta por Fábio Costa. O atacante rapidamente pega a bola para colocá-la no centro do gramado, e pergunta para Parreira o tempo que resta. A resposta: 15 minutos. Começavam os 15 minutos de maior sofrimento que se pode ter em um jogo de futebol.
O tempo corria a nosso favor. Ao mesmo tempo, a defesa peixeira se fechava o máximo que podia. O Corinthians pressionava, e o jogo tinha muitas faltas no setor intermediário. Numa delas, na lateral, alguém pode ter tido um infarto, porque o cruzamento de Vampeta aos 39' incendiaria o Morumbi por intermédio de Anderson. Festa generalizada da Fiel. Até perto da minha casa, em Mongaguá, já se ouviam alguns gritos e fogos de artifício. Já não havia mais nada decidido. E pior: parecia que já tínhamos perdido. Mesmo com a vantagem de 1 gol na soma dos resultados (2x0+1x2=3x2), àquela hora o fantasma do gol no último minuto no Paulistão do ano anterior ainda nos assombrava. Uma derrota de virada, e agora o Corinthians precisando fazer só mais um gol para ser campeão. O que parecia impossível virou quase realidade, os corinthianos vibravam e sonhavam, os santistas agora viviam um pesadelo horrível, chega a ser impossível descrever mais. E só quem viu sabe.
Pra apertar mais ainda o coração, Kléber cobra uma falta pra área, mas o cruzamento é muito mal-feito. Não dá pra imaginar que se passaram só quatro minutos. Pareciam uns quinze, vinte, mas foram só quatro minutos. Este foi o tempo que o time de camisas listradas demorou para transformar nervosismo e apreensão em alegria e festa. Tudo começou com um chutão pra frente de Doni, a bola rebatida por Alex vai parar em Renato, que toca rápido pra Robinho. O "menino-craque", segundo Galvão Bueno, passa pra Elano, que já lhe devolve a bola. O moleque habilidoso escapa do carrinho de Anderson, invade a área pela direita e centra para Elano, que põe fim ao calvário santista. Agora sim, já podíamos ter a certeza de que éramos os campeões, mas as coisas não acabaram por aí.
O juiz também entrou no ritmo da festa. Aos quase 45', Fabrício para Alexandre num lance de extrema violência e descontrole, que só lhe rendeu um cartão amarelo. Aos 46' Léo dá um carrinho e também se livra de uma expulsão. A falta é cobrada e a zaga afasta para escanteio. Rogério o cobra e Alex tira de cabeça. Léo recebe e lança Robinho. O camisa 7 avança e encontra não só a marcação de Vampeta e Kléber, mas também a chance de exibir o futebol-arte. Ele chamou os dois corinthianos para uma dança humilhante, que não poderia acabar de outro jeito: Vampeta desarma, mas a bola sobra para Léo que avança até a entrada da área e define de pé direito, sem chances para Doni: a comemoração é pelo gol, pela bela e emocionante vitória de virada, e pelo sétimo título de campeão brasileiro, o primeiro título do Santos no século XXI, no ano do Penta.
Não demora muito para o campo ser tomado pelos felizes torcedores santistas, que vieram saudar de perto os heróis da conquista.
Veja a ficha técnica e vídeos com os melhores momentos deste grande jogo:
S.C. CORINTHIANS P. 2 x 3 SANTOS F.C.
Data: 15 de dezembro de 2002
Local: Estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi) - São Paulo/SP
Árbitro: Carlos Eugênio Simon
Gols: Robinho (de pênalti) aos 37' do 1º tempo; Deivid aos 30', Anderson aos 39', Elano aos 43' e Léo aos 47' do 2º tempo.
Cartões amarelos: Fabinho, Fábio Luciano e Fabrício (Corinthians); Maurinho, Fábio Costa e Léo (Santos).
Corinthians: Doni; Rogério, Anderson, Fábio Luciano e Kléber; Vampeta, Fabinho (Fabrício) e Renato (Marcinho); Gil, Deivid e Guilherme (Leandro). Técnico: Carlos Alberto Parreira
Santos: Fábio Costa; Maurinho, André Luís, Alex e Léo; Paulo Almeida, Renato, Elano e Diego (Robert, depois Michel); Robinho e William (Alexandre). Técnico: Émerson Leão
Melhores momentos:
Uma final inesquecível, um jogo antológico, um dos maiores jogos que o clássico Santos x Corinthians já viu, um dos títulos mais marcantes da história do clube. Mais uma geração dos Meninos da Vila que superou a descrença dos torcedores e calou os críticos. Superou os seus rivais e alcançou o topo do futebol brasileiro em 2002.
Com o título, o Santos voltaria a disputar a Copa Libertadores após 19 anos.
Robinho carrega o troféu de campeão brasileiro de 2002, conquista mais que merecida
Em 1962, já não se havia dúvidas de qual era o melhor clube do Brasil. O campeão brasileiro não teve muita folga; apenas 11 dias depois de golear o Bahia na final da Taça Brasil de 1961, o Alvinegro já estava no Equador vencendo o Barcelona S.C., de Guayaquil, por 6x2. O time desfilou, naquele início de ano, pelos gramados sul-americanos com um objetivo em mente. Depois de alcançar a hegemonia estadual e de se firmar como campeão da principal competição nacional, o time agora almejava vôos maiores: o clube já se tornava campeão de diversos torneios amistosos disputados na Europa e América Latina, e agora o Santos Futebol Clube podia conquistar seu primeiro título internacional oficial: a Copa Libertadores da América de 1962. Para não repetir o fracasso do Bahia em 1960 (eliminado na fase inicial pelo San Lorenzo, da Argentina) e também não ficar no "quase" como o Palmeiras (que perdeu na decisão para o Peñarol, do Uruguai) na edição anterior, o elenco circulou pelo continente e teve 8 vitórias, 1 empate e 1 derrota diante de algumas das melhores equipes dos países visitados, entre elas o campeão argentino Racing, que foi goleado por 8x3.
A Taça Libertadores (que nasceu com o nome de Campeonato Sul-Americano de Clubes Campeões, depois foi rebatizada com o nome do troféu) teve sua primeira edição em 1960, e tinha (como tem até hoje) o objetivo de determinar o campeão sul-americano. Também tinha como objetivo inicial credenciar o clube campeão à disputa do Mundial Interclubes, que havia sido criado no mesmo ano numa parceria da FIFA com a CONMEBOL e a UEFA, que organizava desde 1955 a Copa dos Campeões Europeus (atualmente conhecida como Liga dos Campeões da Europa). A Libertadores foi criada nos mesmos moldes do campeonato europeu, envolvendo nas suas primeiras disputas apenas os campeões nacionais.
Na sua primeira edição, sete países foram representados, entre eles o campeão brasileiro de 1959, o Bahia. O campeão acabou sendo o uruguaio Peñarol. Na segunda edição, todos os nove países filiados tinham seus campeões inscritos no torneio, que foi vencido novamente pelo Peñarol, que venceu o Palmeiras na decisão.
A terceira edição da Taça Libertadores da América teve 10 participantes: eram os nove campeões nacionais do continente em 1961, além do campeão continental do mesmo ano, o Peñarol. Este já entrava nas semifinais, enquanto os demais clubes eram distribuídos em três grupos, cada um com três times. Os vencedores dos respectivos grupos se classificavam às demais vagas na fase semifinal. Nas semifinais e final, seguia-se o modelo que era reproduzido, inclusive, na Taça Brasil: eram disputados dois jogos, e quem somasse mais pontos se classificava (ou, no caso da final, era o campeão). Em caso de empate no número de pontos, era jogada uma partida de desempate em campo neutro. Caso esta partida terminasse sem vencedor, mesmo após a prorrogação, o primeiro critério de desempate era o saldo de gols.
Assim, o Santos entrou no Grupo 1, com o Deportivo Municipal, da Bolívia, e o Cerro Porteño, do Paraguai. Apenas 9 dias depois de jogar sua última partida pela excursão citada no primeiro parágrafo, o time brasileiro estreou vencendo na altitude de La Paz, por 4x3, e na rodada seguinte despachou os bolivianos com um 6x1. Ao enfrentar o campeão paraguaio, o Alvinegro teve dificuldades no jogo disputado em Assunção, que terminou empatado. Porém, na Vila Belmiro, o Santos dependia de um empate para se classificar, mas deu um show e conseguiu aquela que é sua maior goleada em um campeonato internacional: um sonoro 9x1, que até hoje aparece no top 5 das maiores goleadas da Copa Libertadores.
Nas semifinais, a parada foi mais difícil: num jogo disputado em Santiago (Chile), Santos e Universidad Católica ficaram no 1x1. No jogo de volta, Zito marcou o tento solitário que levou o clube da Baixada Santista à final. O seu adversário? Era o campeão mundial de 1961, um time das cores amarela e preta, que havia simplesmente vencido as duas edições do certame continental disputadas até então e na terceira edição chegava à terceira final: era o Club Atlético Peñarol, sem dúvida outro que foi um dos maiores do mundo naqueles anos 60.
No primeiro jogo, que aconteceu em 28 de julho, o Peixe não tinha Pelé, machucado. Mesmo com o estádio Centenário repleto de fanáticos torcedores do Peñarol, o Santos não se intimidou e venceu de virada com dois gols de Coutinho.
No jogo de volta, cinco dias depois, o Santos tinha o famoso Alçapão da Vila a seu favor, mas saiu atrás com um gol do equatoriano Spencer, mas virou ainda no 1º tempo com Dorval e Mengálvio. Porém, no 2º tempo, o time uruguaio iniciou uma reação impressionante e aos 6 minutos já estava 3x2 para os aurinegros. O terceiro gol do Peñarol provocou reações hostis da torcida santista e, temerosos com a segurança, a arbitragem preferiu manter a partida em disputa até o fim do jogo, mas na prática já não valia mais nada. Pagão ainda havia feito o gol de empate aos 32', e o resultado dava o título ao Santos, com muita festa dos adeptos alvinegros e volta olímpica dos jogadores. Este jogo foi mais um daqueles episódios que merecem o título de "Noite das Garrafadas": mais adiante explicitarei mais detalhes sobre o ocorrido.
Porém as coisas não acabaram por aí. Dois dias depois, foi divulgado que o jogo havia durado 51 minutos apenas, e que o Peñarol, portanto, seria o vencedor da partida. Não restou outra opção: no histórico 30 de agosto de 1962, no Estádio Monumental de Núñez, em Buenos Aires, o Santos massacrou o adversário sem piedade e destruiu os sonhos do tricampeonato rival. Logo aos 11 minutos de bola rolando, Coutinho bateu cruzado e o defensor Caetano completa contra a própria meta. No segundo tempo, o recuperado Edson Arantes do Nascimento completou o espetáculo, marcando o segundo gol já aos quatro minutos. No finalzinho, o mesmo Pelé recebe passe de Coutinho, mata no peito e chuta com força para fechar o placar. O Santos F.C. era pela primeira vez campeão da Copa Libertadores da América e se tornava o primeiro clube brasileiro a conquistar um campeonato internacional.
Seguem listados os clubes que participaram da Taça Libertadores de 1962:
C.A. Peñarol (Uruguai)
Club Deportivo Municipal (Bolívia)
Club Cerro Porteño (Paraguai)
Santos F.C. (Brasil)
Club Nacional de Fútbol (Uruguai)
Club Sporting Cristal (Peru)
Racing Club (Argentina)
C.D. Universidad Católica (Chile)
C.D. Los Millonarios (Colômbia)
C.S. Emelec (Equador)
Seguem agora os jogos da 3ª edição da principal competição sul-americana, com fichas técnicas de todos os jogos do Santos:
1ª fase:
Grupo 1
11/02/1962 Deportivo Municipal 2 x 1 Cerro Porteño
15/02/1962 Cerro Porteño 3 x 2 Deportivo Municipal
18/02/1962 Deportivo Municipal 3 x 4 Santos
Local: Estádio Hernando Siles - La Paz/Bolívia
Árbitro: Airton Ayres Abreu
Gols: Aguilera, J. Torres e Ruiz Díaz (DM); Lima, Mengalvio, Pagão e Tite (S) Deportivo Municipal: Solís; Jorge Montes, Vargas e Di Lorenzo; Zenteno e Alcócer; A. Torres, Aguirre (Ruiz Díaz), Roberto Caínzo, J. Torres e Luis Aguilera.
Santos: Laércio; Getúlio, Olavo e Zé Carlos; Lima e Calvet; Dorval, Mengalvio, Pagão, Pelé e Osvaldo (Tite). Técnico: Lula
Gols: Dorval [2], Pagão [2], Coutinho e Pepe (S); Alberto Torres (DM) Santos: Laércio; Lima, Olavo e Getúlio; Zito e Formiga; Dorval, Mengalvio, Pagão, Pelé (Coutinho) e Pepe. Técnico: Lula
Deportivo Municipal:Solís; Jorge Montes, Vargas e Di Lorenzo; Zenteno e Alcócer; Alberto Torres, Aguirre, Roberto Caínzo (Ruiz Díaz), J. Torres e L. Aguilera
25/02/1962 Cerro Porteño 1 x 1 Santos
Local: Puerto Sajonia (hoje Defensores del Chaco) - Assunção/Paraguai
Árbitro: Luis Ventre
Gols:Cabrera e Dorval
Cerro Porteño:Pérez; Cantero, Monges, Breglia, Monín, D. Martínez, Pavón, Insfrán, A. Jara, P. Rojas e Cabrera. Santos: Laércio; Lima, Olavo e Getúlio; Zito e Calvet; Dorval, Mengalvio, Pagão (Tite), Coutinho e Pepe. Técnico: Lula
Santos: Gilmar; Lima, Mauro e Calvet; Zito e Dalmo; Dorval, Mengalvio, Pagão, Cabralzinho (Tite) e Pepe. Técnico: Lula
Universidad Católica:Walter Behrends; Eleodoro Barrientos, Washington Villarroel, Jorquera, Sérgio Valdés, Hugo Rivera, Osvaldo Pesce, Juan Nawacki, Alberto Fouilloux, Orlando Ramírez e Fernando Ibánez.
08/07/1962 Nacional 2 x 1 Peñarol
18/07/1962 Peñarol 3 x 1 Nacional
22/07/1962 Peñarol 1 x 1 Nacional
FINAL:
C.A. PEÑAROL 1 x 2 SANTOS F.C.
Data: 28 de julho de 1962
Local: Estádio Centenário - Montevidéu/Uruguai
Árbitro: Carlos Robles
Gols:Spencer aos 18' e Coutinho aos 28' do 1º tempo; Coutinho aos 15' do 2º tempo. Peñarol:Luis Maidana; Juan Vicente Lezcano e Núber Cano; Edgardo González, Roberto Matosas e Omar Caetano; Pedro Rocha, José Sasía, Cabrera (Moacyr), Alberto Spencer e Juan Joya. Técnico: Bela Guttman
Santos:Gilmar; Mauro, Calvet e Lima; Zito e Dalmo; Dorval, Mengalvio, Pagão, Coutinho e Pepe (Osvaldo). Técnico: Lula
SANTOS F.C. 2 x 3 C.A. PEÑAROL
Data: 2 de agosto de 1962
Local: Estádio Urbano Caldeira - Santos/Brasil
Árbitro: Carlos Robles
Gols:Spencer aos 15', Dorval aos 19' e Mengálvio aos 36' do 1º tempo; Spencer aos 4' e Sasía aos 6' do 2º tempo.
Santos:Gilmar; Mauro, Calvet e Lima; Zito e Dalmo; Dorval, Mengalvio, Pagão, Coutinho e Pepe. Técnico: Lula
Peñarol:Luis Maidana; Juan Vicente Lezcano e Núber Cano; Edgardo González, Roberto Matosas (Néstor Gonçalves) e Omar Caetano; Fernández Carranza, Pedro Rocha, José Sasía, Alberto Spencer e Juan Joya. Técnico: Bela Guttman
NOTA: Para a Confederação Sul-Americana de Futebol, foram jogados 51 minutos oficialmente e 39 minutos em caráter amistoso. Extraoficialmente, o jogo acabou empatado por 3x3, pois Pagão havia marcado aos 32' do 2º tempo. O árbitro paraguaio Carlos Robles encerrou o jogo após o 3º gol do Peñarol, alegando falta de garantias de segurança, mantendo a partida até o fim porém amistosamente. No dia seguinte, os jornais estampavam "Santos, Campeão da América"... isto é, ninguém sabia que o juiz tinha encerrado a partida; isso só foi descoberto quando o mesmo apresentou a súmula... Esta foi uma partida extremamente conturbada, com os santistas reclamando de um pênalti não marcado sobre Coutinho (11') e outro sobre Pepe. Também reclamaram que os atacantes do time uruguaio haviam atirado areia nos olhos do goleiro Gilmar no lance que valeu o gol de empate (após cobrança de escanteio) e no terceiro gol, alegavam que Sasía cometera falta em Calvet. O resultado disso foi uma enorme confusão, com o árbitro alegando ter sido atingido por uma garrafa (fato este não confirmado, após exames médicos); um verdadeiro caos no gramado, partida interrompida por 1 hora e 25 minutos, até que finalmente o jogo recomeça. Pagão marca o que seria o gol do título, mas o clima continua quente na Vila Belmiro... mais uma garrafa é atirada no campo, agora atingindo o bandeirinha Domingo Massaro, e aí vão mais 10 minutos de paralisação (segundo o meio-campista Zito, a garrafa teria partido da diminuta torcida do Peñarol).
Recomeça novamente a partida e Mauro derruba um atacante uruguaio fora da área, porém o juiz corre para marcar pênalti (!), porém reconsidera e marca apenas falta... em seguida, Carlos Robles encerra a partida (aos 40' do 2º tempo).
*Esta é considerada a partida mais longa da história do Santos Futebol Clube.
*O jogo também foi recorde de renda em Santos (Cr$5.418.000,00), de certo devido aos preços altos dos ingressos.
Nesta foto, vemos um jogador do Peñarol com a garrafa que foi atirada na cabeça do bandeirinha Domingo Massaro (que aparece em segundo plano). Na foto também vemos o Mengálvio.
SANTOS F.C. 3 x 0 C.A. PEÑAROL
Data: 30 de agosto de 1962
Local: Monumental de Núñez - Buenos Aires/Argentina
Árbitro: Leo Horn (Holanda)
Gols:Caetano (contra) aos 11' do 1º tempo; Pelé aos 4' e aos 44' do 2º tempo.
Santos:Gilmar; Lima, Mauro e Dalmo; Zito e Calvet; Dorval, Mengalvio, Pelé, Coutinho e Pepe. Técnico: Lula
Peñarol:Maidana; Lezcano, Núber Cano, Caetano e Néstor Gonçalves; Edgardo González e Roberto Matosas; Pedro Rocha, José Sasía, Alberto Spencer e Juan Joya. Técnico: Bela Guttman
Assim o Santos se tornou pela primeira vez campeão da Copa Libertadores da América. Num encontro entre dois dos maiores esquadrões de todos os tempos, o time do glorioso manto branco levou a melhor, reforçando a crescente boa fama do futebol brasileiro, que vivia seus anos de ouro. O título sul-americano garantiu ao Alvinegro Praiano uma vaga contra o campeão europeu na disputa do Mundial Interclubes. O então campeão da Libertadores e do Mundial, o Peñarol, tinha um substituto à altura (ou até mais do que isso...).
Outro destaque do Peixe foi Coutinho, que acabou como artilheiro do campeonato, balançando as redes 6 vezes. Esta edição da Taça Libertadores foi a que teve a maior média de gols da história: 4,12 (107 gols em 26 jogos), sendo que o Santos contribuiu com 29 (27,1% do total), conseguindo uma média de 3,22 bolas na rede a cada partida jogada.
Abaixo segue um vídeo retirado do YouTube que fala sobre a final da Taça Libertadores de 1962, com direito aos gols do terceiro e decisivo jogo:
Como se sabe, uma final de Copa Libertadores é uma verdadeira guerra de nervos, num campeonato onde muitas vezes a raça suplanta a técnica. Em 1962, ambas se aliaram num time que sem dúvidas marcou o futebol mundial.
Nesta foto vemos Pelé no chão após uma dividida com um jogador do Peñarol, que aparece caído a seu lado.
Nesta foto vemos o zagueiro santista Mauro Ramos de Oliveira (capitão da Seleção Brasileira bicampeão mundial em 1962) carregando o troféu da Copa Libertadores da América.
O objeto que é alvo da cobiça dos clubes da América do Sul e que é uma verdadeira obsessão dos times brasileiros veio para o país primeiro para a Vila Belmiro.
Vale a pena reparar que o troféu ainda não tinha a base de madeira com as placas dos campeões, como é atualmente, até porque o Santos era o segundo time a conquistar a Taça, quebrando a hegemonia do Peñarol, vencendo o mesmo na grande final.